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FiSA 2026: 8 tendências que devem definir os próximos anos da indústria de alimentos

FiSA 2026: 8 tendências que devem definir os próximos anos da indústria de alimentos

FiSA 2026: o ingrediente deixou de ser coadjuvante. Durante três dias, entre 4 e 6 de agosto, a Fi South America 2026 colocou novamente os ingredientes no centro das discussões da indústria de alimentos, bebidas e suplementos.

Mas quem percorreu os corredores do São Paulo Expo encontrou algo além de novas proteínas, fibras, culturas, enzimas, extratos ou soluções de sabor.

Encontrou uma mudança mais profunda.

O ingrediente está deixando de ser tratado apenas como um componente da formulação para se transformar em uma plataforma estratégica de inovação. É a partir dele que as empresas estão tentando resolver alguns dos maiores desafios atuais da indústria: entregar mais nutrição em menos calorias, aumentar proteínas e fibras sem sacrificar sabor, responder ao avanço dos medicamentos GLP-1, criar alimentos funcionais respaldados por ciência, utilizar biotecnologia para produzir melhor, reduzir desperdícios e, ao mesmo tempo, tornar tudo isso economicamente viável.

Essa percepção apareceu tanto nos debates do Summit Future of Nutrition quanto nos produtos apresentados nos estandes, no Innovation Tour, no Sustainability Experience e até nos vencedores do Fi Innovation Awards.

Para a Upcycling Solutions, estas foram as oito tendências que melhor resumem a FiSA 2026.

1. A proteína continua protagonista — mas está entrando em uma nova fase

Dizer que proteína é tendência já não é exatamente novidade. A novidade da FiSA 2026 foi perceber até onde ela está chegando.

Segundo dados da Innova Market Insights apresentados durante o Innovation Tour, 80% dos consumidores demonstram interesse em proteína e 57% já procuram incorporá-la à dieta. A consultoria também apontou crescimento de 66% em lançamentos combinando claims relacionados a proteína e controle de peso.

O resultado aparece nas aplicações.

A proteína saiu definitivamente do pote de suplemento e está chegando a refrigerantes, águas funcionais, snacks, pães, panquecas, biscoitos, sobremesas, raspadinhas e produtos ready-to-drink.

Nos corredores da FiSA apareceram proteínas de ervilha clarificadas para bebidas translúcidas, proteínas de fava, girassol, gergelim, albumina, colágeno, blends vegetais, leveduras e até proteínas provenientes de micélio. A MCassab, por exemplo, apresentou uma aplicação de proteína de ervilha clear em uma raspadinha com 12 g de proteína por porção.

Até o principal prêmio de produto da feira confirmou o movimento. A Mantiqueira Brasil venceu tanto Produto Mais Inovador quanto Produto Mais Inovador em Saudabilidade com N.OVO, uma bebida ready-to-drink feita a partir de clara de ovo. O produto possui 17 g de proteína por porção e foi desenvolvido como uma alternativa às bebidas tradicionais à base de whey.

Ou seja: o próximo capítulo da proteína não será simplesmente colocar “+ proteína” na embalagem.

Será entregar boa qualidade proteica, melhor solubilidade, sensorial, textura, digestibilidade, conveniência e preço competitivo.

E o debate do Summit deixou claro que ainda existem gargalos. Especialistas apontaram três desafios importantes para proteínas alternativas: melhorar sensorial, ampliar funcionalidade tecnológica e tornar os processos realmente escaláveis.

A proteína está deixando de ser uma categoria e se tornando uma arquitetura de produto.

2. A fibra quer ser a “próxima proteína”

Se a proteína dominou os últimos anos, a FiSA mostrou que existe outra velha conhecida pedindo espaço novamente: a fibra.

E ela voltou muito diferente.

Dados da Innova apresentados durante a feira indicam que 63% dos consumidores procuram aumentar a ingestão de fibras. A discussão já não ficou restrita à regularidade intestinal: saciedade, controle glicêmico, microbiota, textura, redução de açúcar e complementaridade às dietas hiperproteicas colocaram a fibra novamente no centro do desenvolvimento de produtos.

Chicória, milho e trigo continuam presentes, mas fontes como ervilha e mandioca aparecem com mais frequência. Também cresce o uso combinado de fibras com proteínas, probióticos e outros componentes funcionais.

É particularmente interessante observar a quantidade de aplicações menos óbvias.

Na FiSA foram apresentados bebidas carbonatadas com fibra, bebidas alcoólicas enriquecidas com fibras e proteínas, maionese vegana formulada com fibra cítrica proveniente da casca de laranja, gummies, snacks, pães e biscoitos funcionais.

Isso sinaliza uma mudança importante.

O consumidor não quer obrigatoriamente um “produto de fibra”. Ele quer produtos que já consome, mas nutricionalmente melhores.

A consequência pode ser parecida com o que aconteceu com a proteína: a fibra pode deixar de ser percebida como um nicho funcional para virar componente recorrente de categorias convencionais.

Para o upcycling, esse movimento é especialmente relevante. Cascas, bagaços, farelos, sementes e outros coprodutos agroindustriais são justamente algumas das fontes mais interessantes para obtenção de fibras alimentares.

3. GLP-1 começa a redesenhar a formulação dos alimentos

Talvez nenhuma discussão mostre tão claramente uma mudança de comportamento com potencial de alterar a indústria quanto o avanço dos medicamentos agonistas de GLP-1.

O tema ganhou espaço próprio no Summit Future of Nutrition.

Os dados apresentados pela Innova são significativos: 71% das pessoas utilizando agonistas de GLP-1 afirmam ter adotado uma alimentação mais saudável após iniciar o tratamento. No Brasil, controle de peso aparece como prioridade para 49% dos consumidores, acima dos 40% observados globalmente.

Existe ainda outro dado particularmente importante para quem desenvolve ingredientes: cerca de 70% dos consumidores em tratamento também utilizam suplementos, especialmente proteínas, vitaminas e minerais.

A lógica é relativamente simples.

Se o consumidor come menos, cada porção precisa entregar mais.

Isso favorece produtos de menor volume, porém com maior densidade nutricional, concentração de proteínas, fibras, vitaminas e minerais.

A tendência pode afetar desde snacks e bebidas até refeições prontas e suplementos.

É uma inversão interessante: durante décadas, boa parte da indústria trabalhou para entregar grandes experiências de indulgência. Agora surge um consumidor para quem a pergunta pode ser:

“Se vou comer menos, o que essa pequena porção realmente entrega?”

Essa mudança deve influenciar profundamente a engenharia de ingredientes dos próximos anos.

4. “Food as Medicine” aproxima cada vez mais alimentos, suplementos e ciência

Outra mensagem forte da FiSA foi a aproximação entre alimentação e prevenção.

Longevidade, saúde metabólica, imunidade, saúde digestiva, cognição, microbiota e envelhecimento saudável apareceram repetidamente na programação.

No painel dedicado ao conceito Food as Medicine, especialistas da Danone, Piracanjuba, Unicamp e ABIAD discutiram exatamente essa convergência entre nutrição e saúde. Dados da ABIAD apresentados durante a discussão indicam que 95% dos usuários de suplementos pesquisados buscam complementar a alimentação com uma abordagem preventiva.

Mas existe uma diferença importante entre a tendência de 2026 e o velho marketing de “alimento funcional”.

A régua científica aumentou.

No último dia do Summit, pesquisadores, indústria e especialistas regulatórios discutiram a necessidade de associar alegações funcionais a evidência científica, mecanismo de ação, população-alvo e enquadramento regulatório adequado. Microbiota, metabolismo e saúde mental foram citados como áreas de forte avanço científico.

Isso significa que “funcional” sozinho já não basta.

O ingrediente precisa responder perguntas cada vez mais difíceis:

Qual benefício entrega? Em qual dose? Para quem? Existe evidência? O mecanismo é conhecido? A alegação é regulatoriamente permitida?

No futuro próximo, a diferenciação entre um ingrediente interessante e um ingrediente realmente valioso poderá estar justamente na robustez da ciência construída ao redor dele.

5. Biotecnologia começa a sair do laboratório e entrar na lista de ingredientes

Fermentação, enzimas, culturas, leveduras, micélio e bioprocessos estiveram presentes de diferentes formas na FiSA 2026.

E talvez os próprios prêmios da feira sejam o melhor termômetro desse movimento.

Na categoria Ingrediente Mais Inovador, a IFF conquistou primeiro e segundo lugares com duas soluções biotecnológicas: Choozit Lift, cultura para queijos semiduros, e Diazyme Nolo, enzima destinada à produção de cervejas sem álcool.

Já na categoria Ingrediente Mais Inovador em Saudabilidade, o primeiro lugar ficou com a SL Neutra Pro Crispies, crispies proteicos de micélio. A mesma SL Alimentos ocupou também segundo e terceiro lugares da categoria.

Nas redes sociais durante a feira, a Angel Yeast destacou proteína fermentada de levedura, beta-glucana, probióticos e extratos de levedura como plataforma para proteína, saúde intestinal e redução de sal.

A leitura aqui é maior do que qualquer produto isolado.

Durante muito tempo, quando se falava em ingrediente, pensava-se principalmente em extrair algo de uma matéria-prima.

A biotecnologia muda essa lógica.

Agora podemos também cultivar, fermentar, transformar ou potencializar uma matéria-prima biologicamente.

E isso abre uma avenida enorme para o upcycling, porque muitos resíduos e coprodutos agroindustriais ricos em carboidratos, fibras, proteínas ou micronutrientes podem se transformar em substratos para fermentação e novos bioprocessos.

É a passagem de “recuperar componentes de um resíduo” para algo mais sofisticado: usar o resíduo como matéria-prima para fabricar um novo ingrediente.

6. Upcycling e sustentabilidade estão ficando mais técnicos — e menos conceituais

Para nós da Upcycling Solutions, um dos sinais mais interessantes da FiSA 2026 foi ver sustentabilidade cada vez menos separada da inovação de ingredientes.

O Sustainability Experience, cuja curadoria foi realizada pela própria Upcycling Solutions, reuniu ingredientes, produtos e empresas com propostas ligadas à circularidade e à valorização de recursos.

Mas a circularidade também apareceu fora desse espaço.

A Concepta apresentou proteína de gergelim proveniente do processo de fabricação do óleo de gergelim; a feira mostrou farinha produzida a partir de semente e casca de uva; fibra cítrica extraída da casca de laranja apareceu como ingrediente funcional; e a SL ProFiber Oat Flour, descrita pela FiSA como uma farinha upcycled de aveia, conquistou o segundo lugar no prêmio de Ingrediente Mais Inovador em Saudabilidade.

Isso importa.

Porque indica que o upcycling está deixando de ser apenas uma narrativa ambiental e começa a competir nos mesmos critérios dos ingredientes tradicionais: performance, saudabilidade, funcionalidade, sensorial e aplicação industrial.

A sustentabilidade também apareceu na própria operação da feira. Segundo a organização, 95% dos estandes foram classificados dentro do programa Better Stands como reutilizáveis, e iniciativas incluíram carpete de PET reciclado, coleta seletiva, redução de impressos e reaproveitamento de materiais.

A próxima fronteira, portanto, não será vender um ingrediente somente porque ele evita desperdício.

Será demonstrar que aquele ingrediente sustentável também é tecnicamente bom, regulatoriamente viável, economicamente competitivo e desejável para o consumidor.

Essa talvez seja uma das evoluções mais importantes para todo o ecossistema do upcycling.

7. Naturalidade cresce, mas “clean label” agora precisa conversar com regulatório e tecnologia

Ingredientes botânicos, corantes naturais, extratos, estévia, fermentação natural e soluções clean label estiveram espalhados por toda a feira.

A Concepta apresentou, entre outras soluções, baunilha brasileira cultivada no sul da Bahia e um corante azul obtido do jenipapo. A X-Tevia promoveu uma estévia desenvolvida para reduzir o residual sensorial típico do ingrediente. Oterra destacou seu portfólio de corantes naturais, enquanto diferentes fornecedores apresentaram soluções para redução de açúcar, sal e aditivos.

Mas o SPOT Regulatório trouxe um contraponto necessário.

A programação destacou que expressões como “100% natural”, “livre de químicos”, “sem conservantes” ou “sem aditivos artificiais” não podem simplesmente ser usadas como quiserem as marcas, e que ingredientes botânicos e extratos precisam respeitar listas positivas e enquadramentos estabelecidos pela Anvisa.

Ou seja, naturalidade deixou de ser apenas um briefing de marketing.

Ela precisa funcionar simultaneamente em quatro dimensões: formulação, sensorial, legislação e comunicação.

É aí que tecnologias como fermentação, enzimas, conservação natural, extratos, aromas moduladores e novos sistemas de texturização ganham importância.

O objetivo já não é simplesmente retirar ingredientes da lista.

É conseguir simplificar o rótulo sem simplificar a experiência do consumidor.

8. A inteligência artificial começa a participar da formulação

IA naturalmente também chegou à FiSA.

Mas de forma um pouco diferente do hype genérico que domina tantas discussões.

No Summit Future of Nutrition foram apresentados casos concretos de uso de inteligência artificial e machine learning em processos de desenvolvimento, análise e decisão. A Unilever mostrou aplicação na validação automatizada de artes e padrões, enquanto outro caso apresentado utilizou machine learning para analisar aproximadamente 3 mil casos, priorizando aqueles que precisavam de avaliação aprofundada por especialistas.

A discussão mais interessante para ingredientes é o que acontece quando IA passa a apoiar formulação.

Combinar centenas de matérias-primas, custos, limitações regulatórias, composição nutricional, parâmetros sensoriais, estabilidade e propriedades tecnológicas é um problema altamente multidimensional.

É exatamente o tipo de problema no qual algoritmos podem ajudar.

Isso não elimina a ciência de alimentos, a bancada ou a experiência do formulador. Pelo contrário: pode permitir que equipes testem hipóteses melhores e eliminem caminhos pouco promissores antes de chegar ao laboratório.

O futuro do desenvolvimento provavelmente será híbrido:

dados + IA + cientistas de alimentos + validação experimental.

O que os vencedores do Fi Innovation Awards 2026 dizem sobre o mercado

Talvez o melhor resumo das tendências esteja no pódio.

A IFF venceu com uma cultura láctea e ficou em segundo com uma enzima. A SL Alimentos ocupou todo o pódio de Ingrediente Mais Inovador em Saudabilidade com micélio, aveia upcycled e proteína de aveia. A Mantiqueira venceu duas categorias com uma bebida proteica de clara de ovo. Entre as startups, o primeiro lugar ficou com Nobars – Peito de Frango, enquanto Mahta ficou em segundo com uma barra proteica de açaí e camu-camu.

Biotecnologia. Proteína. Fibra. Upcycling. Conveniência. Saudabilidade. Ingredientes brasileiros.

Difícil encontrar um retrato mais claro da direção que o setor está tomando.

A principal tendência da FiSA 2026 talvez seja a convergência

Depois de três dias olhando ingredientes, aplicações, tecnologias e discussões, uma conclusão fica evidente.

As tendências estão deixando de caminhar isoladamente.

Proteína encontra fibra.

Fibra encontra microbiota.

Saudabilidade encontra indulgência.

Naturalidade encontra tecnologia.

Biotecnologia encontra sustentabilidade.

Upcycling encontra funcionalidade.

Nutrição encontra medicina.

IA encontra P&D.

E ciência encontra — ou deveria encontrar — escala industrial.

A FiSA 2026 mostrou uma indústria menos interessada em ingredientes que resolvam apenas um problema e cada vez mais interessada em plataformas capazes de resolver vários problemas simultaneamente.

Essa mudança favorece especialmente tecnologias capazes de criar ingredientes multifuncionais, matérias-primas provenientes da biodiversidade brasileira, processos fermentativos e soluções que valorizem coprodutos da indústria.

O desafio daqui para a frente será transformar possibilidades tecnológicas em soluções que funcionem fora da apresentação de PowerPoint e da bancada.

Porque entre uma boa ideia e um ingrediente que realmente muda o mercado ainda existem algumas palavras fundamentais:

escala, custo, legislação, qualidade, sensorial e demanda.

E talvez essa seja a mensagem mais importante que a FiSA 2026 deixou para a indústria.

O futuro dos ingredientes não será definido apenas pelo que conseguimos produzir.

Será definido pelo que conseguimos produzir melhor, provar que funciona, escalar e colocar no mercado.

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