
A CVM tirou a obrigação. Mas quem vai tirar o resíduo da conta das empresas?
Quando a sustentabilidade deixa de ser obrigatória no papel, ela precisa se tornar ainda mais estratégica na operação
A CVM tirou a obrigação. A recente decisão da Comissão de Valores Mobiliários de retirar a obrigatoriedade do relatório financeiro de sustentabilidade para companhias abertas reacende uma discussão urgente no Brasil: a sustentabilidade deve avançar porque é exigida por norma ou porque já se tornou parte essencial da competitividade das empresas?
A Resolução CVM 244, publicada em 29 de maio de 2026, alterou a Resolução CVM 193 e revogou o artigo que previa a obrigatoriedade da divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade e ao clima por companhias abertas. Com isso, o reporte passa a permanecer voluntário, no modelo “pratique ou explique”, mantendo o uso dos padrões CBPS e ISSB para as empresas que optarem pela divulgação. (Serviços e Informações do Brasil)
Na prática, a mudança significa que as empresas não estarão mais obrigadas a publicar esse tipo de relatório a partir dos exercícios sociais iniciados em 2026, como estava previsto anteriormente. A CVM justificou a alteração como uma forma de dar maior flexibilidade ao regime de adoção voluntária dos padrões de sustentabilidade e preservar a eficiência decisória dos participantes do mercado. (Serviços e Informações do Brasil)
Mas a pergunta que fica é: flexibilidade para quem? E a que custo?
Porque, embora a obrigação regulatória possa ter sido retirada, os riscos continuam existindo. As emissões continuam existindo. Os resíduos continuam existindo. As perdas industriais continuam existindo. Os custos de descarte continuam existindo. E, principalmente, a cobrança por coerência, rastreabilidade e responsabilidade continua crescendo.
Para a Upcycling Solutions, essa decisão representa um retrocesso simbólico importante. Não porque um relatório, por si só, resolva os desafios socioambientais das empresas. Mas porque a obrigação de reportar força algo fundamental: medir, organizar, comparar e prestar contas.
E aquilo que não é medido dificilmente é gerido com seriedade.
O problema não é apenas deixar de reportar. É deixar de enxergar
A sustentabilidade corporativa passou muitos anos sendo tratada como narrativa institucional. Relatórios bonitos, fotos de projetos sociais, metas genéricas, frases inspiradoras e compromissos de longo prazo que, muitas vezes, não se conectavam à operação real da empresa.
Esse modelo está se esgotando.
O mercado já não precisa apenas de discursos. Precisa de dados.
Precisa saber onde estão os riscos.
Precisa entender onde estão as perdas.
Precisa avaliar a exposição climática.
Precisa medir eficiência no uso de recursos.
Precisa comparar empresas de forma transparente.
Precisa separar compromisso real de greenwashing.
É por isso que padrões como ISSB e CBPS são importantes. Eles aproximam a sustentabilidade da lógica financeira e colocam temas ambientais, sociais e climáticos dentro da linguagem de risco, oportunidade, governança e geração de valor.
Quando uma empresa informa como gerencia seus riscos climáticos, sua dependência de recursos naturais, sua exposição regulatória, seus impactos operacionais e sua estratégia de transição, ela não está apenas “falando de ESG”. Ela está mostrando ao mercado como pretende continuar relevante em um mundo de recursos mais caros, consumidores mais atentos e cadeias de suprimentos mais exigentes.
Retirar a obrigatoriedade do reporte pode dar alívio de curto prazo para algumas empresas. Mas também pode gerar um atraso perigoso na maturidade de gestão.
Porque o relatório não é o fim. Ele é consequência de uma empresa que aprendeu a olhar para dentro.
Na indústria de alimentos, a pergunta central é: o que acontece com o resíduo?
Para a indústria de alimentos, bebidas e ingredientes, a discussão sobre sustentabilidade financeira é ainda mais concreta.
Não estamos falando apenas de carbono, energia ou água. Estamos falando de toneladas de matérias-primas, subprodutos, excedentes, aparas, cascas, sementes, bagaços, farelos, borras, fibras, soro, polpas, produtos fora de especificação e estoques com baixa rotatividade.
Estamos falando de valor que entra na fábrica como matéria-prima, passa por um processo produtivo e, muitas vezes, sai pela porta dos fundos como custo.
Segundo a FAO, 13,2% dos alimentos são perdidos globalmente na cadeia entre o pós-colheita e antes do varejo. Além disso, outros 19% são desperdiçados nas etapas de varejo, food service e consumo doméstico, de acordo com estatísticas do UNEP. (FAOHome)
O Food Waste Index Report 2024, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, estimou que 1,05 bilhão de toneladas de alimentos foram desperdiçadas em 2022 apenas nos segmentos de varejo, serviços de alimentação e residências. Isso equivale a cerca de 132 kg por pessoa ao ano na média global. (UNSD)
Esses dados mostram que a perda de alimentos não é um problema marginal. É uma das maiores ineficiências econômicas, ambientais e sociais do nosso tempo.
E, dentro da indústria, essa discussão precisa deixar de ser tratada apenas como “destinação de resíduos”.
O verdadeiro debate é outro:
quanto valor ainda existe naquilo que a empresa hoje trata como sobra?
O resíduo não desaparece porque o relatório deixou de ser obrigatório
A decisão da CVM pode mudar a obrigação de reportar, mas não muda a realidade operacional das empresas.
O resíduo continua sendo gerado.
O descarte continua tendo custo.
A matéria-prima desperdiçada continua afetando margem.
A baixa eficiência continua aparecendo no resultado.
A ausência de rastreabilidade continua sendo risco.
O comprador internacional continua exigindo evidências.
O consumidor continua desconfiando de promessas vagas.
O investidor continua buscando empresas mais resilientes.
É aqui que a sustentabilidade precisa sair do campo do marketing e entrar no campo da gestão.
Uma empresa que não sabe quanto resíduo gera, onde ele é gerado, qual sua composição, qual seu custo de destinação, qual sua estabilidade, qual seu potencial técnico e quais rotas de valorização existem, não tem apenas um problema ambiental. Tem um problema estratégico.
Porque pode estar desperdiçando receita.
Pode estar ignorando novos produtos.
Pode estar pagando para descartar algo que poderia ser vendido.
Pode estar perdendo competitividade para empresas que já entenderam a lógica da economia circular.
Pode estar abrindo espaço para concorrentes mais eficientes, mais inovadores e mais preparados para responder às exigências do mercado.
Na prática, o reporte de sustentabilidade pode até ser voluntário. Mas a ineficiência não é.
ESG não morreu. O ESG superficial é que precisa acabar
Nos últimos anos, tornou-se comum ouvir que “o ESG morreu”. Mas essa frase simplifica demais uma discussão muito mais profunda.
O que está morrendo é o ESG usado como discurso vazio.
O ESG que aparece apenas no relatório, mas não chega à fábrica.
O ESG que fala de impacto, mas não mede perdas.
O ESG que promete circularidade, mas continua descartando subprodutos de alto potencial.
O ESG que cria campanhas, mas não muda processos.
O ESG que tenta parecer sustentável, mas não consegue comprovar.
Esse ESG precisa mesmo ficar para trás.
Mas a sustentabilidade real não morreu. Pelo contrário: ela ficou mais necessária.
Porque os problemas continuam. A crise climática continua. A pressão sobre recursos naturais continua. O desperdício continua. As cadeias globais continuam ficando mais exigentes. E o capital continua buscando empresas com menor exposição a riscos e maior capacidade de adaptação.
A diferença é que, daqui para frente, sustentabilidade precisará ser menos narrativa e mais evidência.
Menos promessa e mais indicador.
Menos intenção e mais projeto.
Menos compensação e mais redução.
Menos descarte e mais valorização.
Menos greenwashing e mais engenharia de solução.
O upcycling de alimentos como resposta prática
O upcycling de alimentos surge exatamente nesse ponto: como uma resposta concreta, técnica e econômica para transformar resíduos, subprodutos e excedentes em novos ingredientes, produtos e oportunidades de negócio.
Não se trata apenas de “dar um destino melhor” ao resíduo. Trata-se de repensar a lógica de valor da cadeia.
Um bagaço pode virar ingrediente funcional.
Uma casca pode virar fibra.
Uma semente pode virar óleo, farinha ou extrato.
Um farelo pode virar base para novos produtos.
Uma borra pode virar bioativo.
Um excedente pode encontrar um novo comprador.
Um resíduo pode deixar de ser custo e se tornar receita.
Mas isso não acontece por acaso.
É preciso diagnóstico.
É preciso análise técnica.
É preciso entender composição, segurança, legislação, escala, estabilidade, logística, mercado e viabilidade econômica.
É preciso conectar ciência, indústria, sustentabilidade e modelo de negócio.
É exatamente esse o papel da Upcycling Solutions: ajudar empresas a sair da pergunta “como descartamos isso?” para uma pergunta muito mais estratégica:
como transformamos isso em valor?
Sustentabilidade que gera resultado não depende apenas de obrigação
A retirada da obrigatoriedade do relatório financeiro de sustentabilidade pode fazer algumas empresas reduzirem o ritmo. Mas as empresas que realmente entendem o movimento do mercado não deveriam esperar uma norma para agir.
Porque as vantagens de medir e valorizar resíduos são concretas:
Redução de custos de descarte.
Melhoria de margem.
Criação de novos ingredientes e produtos.
Aumento da eficiência industrial.
Acesso a novos mercados.
Fortalecimento da reputação.
Geração de indicadores ambientais mensuráveis.
Apoio a metas de economia circular.
Redução de riscos regulatórios e reputacionais.
Maior atratividade para investidores e parceiros.
Ou seja, sustentabilidade bem executada não é custo. É inteligência de negócio.
O problema é que muitas empresas ainda olham para sustentabilidade como obrigação externa, quando deveriam enxergá-la como ferramenta interna de competitividade.
A empresa que só mede porque é obrigada está atrasada.
A empresa que mede porque quer melhorar está amadurecendo.
A empresa que mede, transforma e monetiza seus resíduos está liderando.
O verdadeiro relatório está na operação
Relatórios são importantes. Transparência é importante. Padrões comparáveis são importantes. Mas o dado mais poderoso é aquele que nasce da operação real.
Quantas toneladas de subprodutos foram valorizadas?
Quanto resíduo deixou de ir para descarte?
Quanto custo foi evitado?
Quanta nova receita foi criada?
Quantos ingredientes foram desenvolvidos?
Quantas cadeias foram conectadas?
Quanto impacto foi reduzido?
Quanto valor foi recuperado?
Essas são perguntas que qualquer empresa comprometida com sustentabilidade deveria ser capaz de responder.
Não apenas para cumprir uma obrigação regulatória. Mas para entender o próprio negócio.
No futuro, as empresas mais competitivas não serão necessariamente aquelas que publicam os relatórios mais bonitos. Serão aquelas que conseguem provar, com dados e resultados, que transformaram seus impactos em oportunidades.
Um retrocesso regulatório não precisa virar retrocesso empresarial
A decisão da CVM é, sem dúvida, um sinal preocupante. Ela pode reduzir a pressão por transparência em um momento em que o mercado brasileiro ainda precisa avançar muito em mensuração, padronização e governança da sustentabilidade.
Mas esse retrocesso regulatório não precisa virar retrocesso empresarial.
As empresas podem escolher continuar evoluindo.
Podem escolher medir.
Podem escolher reportar.
Podem escolher inovar.
Podem escolher transformar resíduos em valor.
Podem escolher liderar pelo exemplo.
Podem escolher mostrar ao mercado que sustentabilidade não depende apenas de obrigação, mas de visão.
Porque, no fim, a pergunta que realmente importa não é se o relatório será obrigatório ou voluntário.
A pergunta é:
a sua empresa está preparada para explicar, com dados e resultados, o que faz com seus impactos?
E, para a indústria de alimentos, existe uma pergunta ainda mais direta:
o que a sua empresa está fazendo com aquilo que hoje chama de resíduo?
Na Upcycling Solutions, acreditamos que o futuro da sustentabilidade não estará apenas nos relatórios. Estará nas fábricas, nos ingredientes, nas cadeias produtivas, nos modelos de negócio circulares e na capacidade de transformar desperdício em oportunidade concreta.
Porque o reporte pode até ser voluntário.
Mas a responsabilidade, a eficiência e a inovação já não são.
Leia outros artigos do Blog aqui.



