
Nos próximos anos a pressão sobre o preço dos alimentos vai aumentar e a indústria continua jogando valor no lixo.
Nos próximos anos, produzir alimentos será mais caro, mais incerto e mais vulnerável. Ainda assim, toneladas de fibras, proteínas, carboidratos, compostos bioativos e outros nutrientes continuam saindo das fábricas pela porta dos fundos como “resíduos”.
Existe uma contradição cada vez mais difícil de justificar na indústria de alimentos.
De um lado, empresas discutem aumento do custo das matérias-primas, energia, fertilizantes, logística, câmbio, eventos climáticos extremos e instabilidade geopolítica.
Do outro, dentro das próprias fábricas, continuam descartando toneladas de materiais que já foram plantados, irrigados, colhidos, transportados, processados e pagos.
Até quando essa conta vai fechar?
A questão deixou de ser apenas ambiental.
Desperdiçar alimentos e subprodutos nutricionalmente relevantes está se tornando uma decisão econômica ruim.
E os próximos quatro anos devem tornar isso ainda mais evidente.
O alimento barato está ficando mais difícil de produzir
Não existe hoje uma projeção científica séria dizendo que todas as commodities agrícolas aumentarão continuamente de preço até 2030. A própria OECD-FAO projeta relativa estabilidade dos preços agrícolas internacionais em termos reais no horizonte de longo prazo, considerando ganhos contínuos de produtividade.
O problema está justamente no que existe ao redor dessa projeção.
Ela pressupõe condições relativamente normais.
E o mundo está ficando cada vez menos normal.
O Agricultural Outlook 2026–2035, da OECD e FAO, reconhece que conflitos, custos energéticos, fertilizantes e eventos inesperados podem provocar fortes desvios dessa trajetória. Os impactos do conflito no Oriente Médio em 2026, por exemplo, já levaram as instituições a avaliar cenários de menor utilização de fertilizantes, redução da produção de cereais e aumento dos preços dos alimentos.
O Banco Mundial chegou à mesma preocupação. Em 2026, alertou que a combinação entre conflitos geopolíticos, energia mais cara, fertilizantes, possíveis condições de El Niño, aumento da demanda por biocombustíveis e restrições comerciais cria riscos claramente voltados para cima nos preços internacionais dos alimentos.
Ou seja:
o problema dos próximos anos talvez não seja uma linha reta de inflação alimentar. Será a sucessão de choques.
Seca em uma região.
Calor extremo em outra.
Energia mais cara.
Fertilizantes mais caros.
Uma rota marítima interrompida.
Uma guerra.
Uma quebra de safra.
Uma nova barreira comercial.
E cada evento volta a pressionar uma cadeia que já trabalha com margens apertadas.
E ainda nem colocamos a mudança climática integralmente nessa conta
Talvez esse seja o componente mais preocupante.
Um estudo publicado em 2024 na revista científica Communications Earth & Environment, do grupo Nature, analisou mais de 27 mil observações mensais de índices de preços ao consumidor em diferentes partes do mundo.
A conclusão merece atenção de qualquer executivo da indústria de alimentos.
Sob as condições climáticas projetadas para 2035 e sem níveis extraordinários de adaptação, o aquecimento global poderia adicionar, em média, aproximadamente 0,92 a 3,23 pontos percentuais por ano à inflação de alimentos, dependendo dos cenários climáticos e das especificações utilizadas.
Não estamos mais falando apenas de sustentabilidade.
Estamos falando de preço, margem, disponibilidade de matéria-prima e competitividade.
Mudança climática começa no campo, mas termina no DRE das empresas.
Enquanto isso, continuamos descartando nutrientes
É aqui que o paradoxo se torna desconfortável.
A FAO estima que 13,2% dos alimentos sejam perdidos globalmente depois da colheita e antes de chegar ao varejo. Outros 19% dos alimentos disponíveis aos consumidores são desperdiçados no varejo, serviços de alimentação e residências. As perdas e o desperdício de alimentos também estão associados a aproximadamente 8% a 10% das emissões globais de gases de efeito estufa.
Mas existe outra discussão dentro desses números que ainda recebe menos atenção do que deveria: os fluxos laterais e subprodutos gerados pela própria transformação industrial dos alimentos.
Cascas.
Bagaços.
Polpas.
Sementes.
Farelos.
Fibras.
Soros.
Águas de processo.
Correntes ricas em amido.
Materiais ricos em proteína.
Compostos fenólicos.
Óleos.
Minerais.
Carboidratos.
Muitos desses materiais ainda são tratados essencialmente como um problema de destinação.
A ciência, entretanto, já está mostrando outra coisa.
Revisões recentes na literatura demonstram que subprodutos da indústria de alimentos podem ser fontes de fibras, proteínas, compostos bioativos, ingredientes funcionais, substratos de fermentação e outros produtos de maior valor agregado, utilizando tecnologias como separação, extração, hidrólise enzimática e fermentação.
É importante fazer uma ressalva: nem todo resíduo pode ou deve voltar diretamente para alimentação humana. Segurança, composição, contaminantes, estabilidade, logística, regulamentação e viabilidade econômica precisam ser avaliados individualmente.
Mas exatamente por isso a primeira pergunta não deveria ser:
“Como descartamos isso?”
Deveria ser:
“O que ainda existe de valor aqui?”
O Brasil deveria estar liderando essa transformação
Talvez o paradoxo seja ainda maior no Brasil.
Somos uma potência agroalimentar.
Somente em 2025, o agronegócio brasileiro exportou US$ 169,2 bilhões, representando 48,5% de todas as exportações brasileiras. Para a safra 2025/26, a produção nacional de grãos foi estimada em aproximadamente 353 milhões de toneladas.
Poucos países possuem simultaneamente a quantidade de biomassa, diversidade agrícola, conhecimento científico, parque industrial e capacidade tecnológica existente no Brasil.
Consequentemente, poucos países também possuem tanto potencial para transformar subprodutos da indústria de alimentos em novas cadeias de ingredientes.
E ainda assim encontramos resistência.
Muitas empresas continuam enxergando seus resíduos prioritariamente pela ótica de destinação, tratamento e custo.
É compreensível historicamente.
Mas começa a ficar difícil defender essa lógica economicamente.
Porque uma empresa compra uma fruta e aproveita o suco, mas descarta parte relevante da fibra.
Processa um cereal e vende a fração principal, enquanto outra corrente nutricionalmente interessante termina em uma aplicação de baixo valor.
Produz bebidas, lácteos, café, carnes ou ingredientes e aceita que parte dos nutrientes incorporados à matéria-prima saia do processo praticamente sem captura de valor.
A empresa pagou por aquela matéria-prima inteira.
Pagou pela água.
Pagou pelo fertilizante.
Pagou pelo transporte.
Pagou pela energia.
Pagou pelo processamento.
E depois paga novamente para retirar uma parte da fábrica.
Em algum momento precisamos admitir que existe algo errado nessa equação.
Em outros mercados, essa conversa já mudou
Na Upcycling Solutions, percebemos uma diferença interessante entre parte das empresas brasileiras e alguns dos projetos que acompanhamos junto a organizações internacionais.
Para muitas dessas empresas, valorizar seus subprodutos deixou de ser apenas um projeto de ESG.
É uma discussão de eficiência de recursos, segurança de fornecimento, geração de receita e redução da exposição a matérias-primas cada vez mais vulneráveis.
Elas começam a enxergar esses fluxos como aquilo que realmente são:
ativos subutilizados.
Essa mudança de linguagem importa.
“Resíduo” é algo que precisamos eliminar.
“Ativo” é algo que precisamos entender, proteger e rentabilizar.
E é exatamente essa mudança de mentalidade que acreditamos que precisa acelerar no Brasil.
Upcycling não é transformar lixo em produto. É parar de transformar valor em lixo.
Quando falamos de upcycling, muita gente ainda imagina uma iniciativa ambiental interessante para relatórios de sustentabilidade.
Essa visão está ficando ultrapassada.
Upcycling pode significar transformar uma corrente de baixo valor em fibra alimentar.
Extrair compostos bioativos de uma casca.
Recuperar proteína de um subproduto.
Utilizar carboidratos residuais em processos fermentativos.
Desenvolver ingredientes para alimentação animal.
Criar novos materiais.
Substituir parcialmente matérias-primas virgens.
Abrir uma nova fonte de receita.
Reduzir custos de destinação.
Ou simplesmente utilizar de forma mais inteligente aquilo que a empresa já comprou.
Uma revisão publicada em Current Opinion in Food Science resume bem esse potencial: processos como fermentação microbiana e hidrólise enzimática vêm permitindo converter diferentes subprodutos alimentares em produtos de maior valor, aumentando a eficiência de utilização dos recursos.
Não significa que todo projeto será tecnicamente ou economicamente viável.
Mas significa que não avaliar esse potencial também passou a ter um custo.
Talvez a pergunta para 2030 não seja quanto custa fazer upcycling
Talvez estejamos fazendo a pergunta errada.
Durante anos, quando apresentávamos alternativas de valorização, a primeira pergunta normalmente era:
“Quanto custa transformar esse resíduo?”
Nos próximos anos, uma pergunta diferente tende a ganhar importância:
“Quanto está custando não transformá-lo?”
Quanto custa continuar comprando ingredientes que poderíamos recuperar parcialmente?
Quanto custa depender integralmente de uma matéria-prima sujeita a clima, energia, fertilizantes, câmbio e geopolítica?
Quanto valor nutricional sai das fábricas todos os dias?
Quanto estamos pagando para produzir materiais que depois classificamos como resíduos?
E quantas oportunidades de novos ingredientes e novos negócios estão literalmente indo embora em caminhões?
A pressão sobre o sistema alimentar mundial vai aumentar.
O clima será mais imprevisível.
A geopolítica continuará interferindo nas cadeias globais.
Energia, fertilizantes e logística permanecerão expostos a choques.
E alimentar uma população crescente continuará exigindo mais eficiência.
Diante desse cenário, talvez exista uma conclusão bastante simples:
não podemos continuar produzindo como se matéria-prima fosse infinita e barata.
O Brasil possui uma das maiores indústrias de alimentos do mundo.
Também possui uma das maiores oportunidades de upcycling do mundo.
Podemos esperar até que o aumento dos custos torne essa transformação obrigatória.
Ou podemos começar agora.
Porque, quando cada quilo de alimento se torna mais caro para produzir, jogar nutrientes fora deixa de ser desperdício. Passa a ser perda de competitividade.
E a pergunta que fica para a indústria brasileira é:
Até quando essa conta vai fechar?
Referências utilizadas
OECD & FAO. OECD-FAO Agricultural Outlook 2026–2035. OECD Publishing/FAO, 2026.
World Bank. Commodity Markets Outlook – April 2026 e análise sobre riscos para os mercados globais de alimentos em 2026.
Kotz, M. et al. Global warming and heat extremes to enhance inflationary pressures. Communications Earth & Environment, 2024.
FAO / UNEP. Dados internacionais sobre perdas e desperdício de alimentos.
Zhang et al. / Current Opinion in Food Science. Waste to wealth: bioprocessing methods for the conversion of food byproducts into value-added products, 2024.
Ministério da Agricultura e Pecuária. Dados da produção e das exportações brasileiras do agronegócio, 2025–2026.
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