
Circularidade e capitalismo tardio: o paradoxo da sustentabilidade no século XXI
Segundo a Ellen MacArthur Foundation, “na economia atual, nós retiramos materiais da Terra, fazemos produtos a partir deles e, no final, os descartamos como resíduos, o processo é linear. A economia circular (circularidade) é sustentada pela transição para energias e materiais renováveis e dissocia a atividade econômica do consumo de recursos finitos. Ela nos dá o poder de aumentar a prosperidade e gerar mais empregos e resiliência e, ao mesmo tempo, reduz as emissões de gases do efeito estufa, o desperdício e a poluição.”
Esse conceito tem sido amplamente adotado por empresas, como mostram estudos recentes (Hina et al., 2022; Rizos et al., 2018; Velenturf & Purnell, 2021), que demonstram um interesse crescente em integrar aspectos de circularidade nas estratégias corporativas. Modelos de negócios circulares ganham força por conciliarem crescimento econômico com a promessa de redução de impactos ambientais — tornando-se, assim, uma proposta atrativa tanto para o setor privado quanto para formuladores de políticas públicas.
Mas será que é suficiente?
A armadilha da “circularidade pela circularidade”
A circularidade, quando vista de forma isolada, pode mascarar contradições profundas do sistema econômico vigente. Ao mesmo tempo em que empresas buscam otimizar seus processos e reaproveitar materiais, continuam inseridas numa lógica de crescimento infinito baseada na produção e no consumo desenfreado. É o que se observa, por exemplo, na atuação da Apple: embora desenvolva tecnologias para reutilizar componentes de seus dispositivos, dificulta o conserto e restringe o uso prolongado de seus produtos, estimulando trocas constantes. A cada novo lançamento, o antigo se torna obsoleto — não por sua funcionalidade, mas por questões simbólicas de status.
A indústria da moda é outro exemplo emblemático: mesmo diante de campanhas por sustentabilidade, continua pautada por um modelo de “coleções sazonais” que estimula o consumo constante e descarta o que rapidamente se torna “fora de moda”.
Essa contradição é ainda mais complexa quando se considera que as metas corporativas estão muitas vezes atreladas ao aumento contínuo de vendas e lucros. Mesmo que os produtos sejam mais sustentáveis, a pressão interna das empresas por performance e a expectativa de crescimento ilimitado geram um impasse: a extração de recursos e a produção de bens seguem escalando.
Capitalismo tardio e o dilema da circularidade
O modelo de economia circular, quando ancorado em estruturas capitalistas tradicionais, não rompe com a lógica fundamental da exploração de recursos — apenas a torna mais eficiente. Como alerta Buchanan (2018), vivemos sob o que se denomina “capitalismo tardio”, um estágio do sistema econômico caracterizado por sua complexidade, desigualdade e impactos ambientais exacerbados. Para Alami (2023), este modelo enfrenta crises simultâneas: estagnação econômica, populações excedentárias e colapso ecológico.
Nesse contexto, a economia circular corre o risco de se tornar uma solução tecnocrática — útil para maquiar os sintomas, mas ineficaz para enfrentar as causas estruturais da crise ambiental.
O papel do consumidor e o impasse social
Não é razoável responsabilizar exclusivamente o consumidor pelas escolhas que faz em um sistema desenhado para incutir desejos e criar necessidades. A publicidade, a cultura de status e os incentivos sociais e econômicos reforçam o desejo de ascensão material e de diferenciação social — frequentemente atrelados ao consumo de bens simbólicos, como roupas da moda ou o mais novo smartphone.
Como destaca Dhesi (2023), estamos diante de um dilema ético e econômico: garantir empregos em cadeias de suprimento ambientalmente insustentáveis ou restringir essas atividades em nome da preservação ambiental, correndo o risco de comprometer meios de subsistência?
Um alerta contra o greenwashing disfarçado de circularidade
De acordo com Lesniewska e Steenmans (2023), quando a economia circular se alinha apenas aos interesses corporativos, ela não transforma o sistema — apenas o adapta para manter o mesmo modelo sob uma nova roupagem. É o que chamam de “negócios iguais, mas circulares”. Nesse cenário, a circularidade se torna um instrumento de greenwashing, promovendo uma imagem sustentável sem mudanças reais no padrão de consumo ou na estrutura produtiva.
E agora?
A economia circular é, sem dúvida, uma ferramenta poderosa. Ela permite avanços importantes na redução de resíduos, na inovação de materiais e na eficiência de recursos. No entanto, não é panaceia. Enquanto estiver inserida em um sistema que exige crescimento constante e ilimitado, sua capacidade de regenerar o planeta será sempre limitada.
Na Upcycling Solutions, acreditamos na circularidade como meio — não como fim. Ela deve estar inserida em uma estratégia mais ampla de transição ecológica, que desafia os fundamentos do modelo atual de produção e consumo. Avançar nesse caminho requer coragem política, inovação sistêmica e, sobretudo, uma nova narrativa sobre o que é prosperidade em um planeta com limites.
Veja mais artigos no blog da Upcycling.
Veja tmabém o artigo do G1 que aborda: o caso brasileiro onde a política se curva à lógica do petróleo.



